O Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH) é uma condição do neurodesenvolvimento que pode afetar crianças, adolescentes e adultos. Embora o nome destaque “atenção” e “hiperatividade”, o transtorno envolve um conjunto mais amplo de dificuldades relacionadas à autorregulação, ao controle dos impulsos e às funções executivas.
Segundo Russell A. Barkley, um dos principais pesquisadores da área, compreender o TDAH a partir das funções executivas e da autorregulação ajuda a explicar por que muitas pessoas sabem o que precisam fazer, mas encontram dificuldades para iniciar, organizar, manter ou concluir determinadas tarefas. Essa perspectiva é discutida em suas obras sobre TDAH infantil e adulto.
Afinal, quais são os principais sinais do TDAH?
Os sinais podem variar bastante de uma pessoa para outra. Nem todas as pessoas com TDAH apresentam hiperatividade evidente.
Entre as manifestações mais conhecidas estão:
- Desatenção: dificuldade para manter o foco, acompanhar detalhes, organizar tarefas ou lembrar compromissos.
- Desorganização: dificuldade para administrar tempo, materiais, prioridades e prazos.
- Procrastinação: tendência a adiar tarefas, especialmente aquelas consideradas pouco estimulantes ou que exigem esforço prolongado.
- Impulsividade: dificuldade para esperar, interromper conversas ou agir sem avaliar completamente as consequências.
- Hiperatividade: inquietação física ou sensação interna de estar constantemente “a mil”.
- Dificuldades de autorregulação: problemas para controlar respostas emocionais, comportamentos ou impulsos.
- Oscilação na produtividade: períodos de intensa concentração em determinadas atividades podem alternar com grande dificuldade para iniciar tarefas aparentemente simples.
Importante: apresentar alguns desses comportamentos não significa necessariamente ter TDAH. O diagnóstico depende de uma avaliação clínica adequada, considerando a história de vida, o contexto e o impacto dos sintomas em diferentes áreas.
TDAH não é simplesmente “falta de atenção”
Um dos grandes equívocos sobre o transtorno é imaginar que a pessoa com TDAH simplesmente “não consegue prestar atenção”.
Na realidade, muitas pessoas conseguem permanecer extremamente concentradas em atividades que despertam grande interesse. A dificuldade pode estar principalmente na regulação da atenção, isto é, em direcionar, sustentar e mudar o foco conforme as demandas da situação.
Por isso, frases como “se você consegue se concentrar nisso, então não pode ter TDAH” podem contribuir para a desinformação.
O problema não é simplesmente não ter atenção. É ter dificuldade para regular a atenção de acordo com aquilo que a situação exige.
TDAH na infância, adolescência e vida adulta
O TDAH pode se manifestar de maneiras diferentes ao longo da vida.
Na infância, podem aparecer dificuldades escolares, esquecimentos, impulsividade, inquietação, problemas para seguir instruções ou organizar atividades.
Na adolescência, podem surgir desafios relacionados à autonomia, planejamento, estudos, relações sociais e controle de impulsos.
Na vida adulta, as dificuldades podem aparecer no trabalho, nos relacionamentos, na organização financeira, na administração da rotina e no cumprimento de compromissos.
A literatura clínica também destaca a importância de avaliar possíveis condições associadas, pois sintomas de TDAH podem coexistir com outros problemas de saúde mental ou do neurodesenvolvimento. O livro de Barkley voltado ao TDAH infantil, por exemplo, dedica capítulos à avaliação de comorbidades e aos princípios do diagnóstico.
Mulheres e TDAH: por que muitas passam despercebidas?
O TDAH também merece atenção especial quando falamos sobre mulheres.
Nem sempre a apresentação do transtorno corresponde ao estereótipo de uma criança extremamente agitada. Algumas mulheres podem apresentar predominantemente dificuldades de atenção, organização, administração do tempo e autorregulação, o que pode contribuir para que seus sinais sejam menos reconhecidos.
Isso pode resultar em anos de interpretações equivocadas: “preguiça”, “desorganização”, “falta de disciplina”, “descuido” ou “falta de esforço”.
Por isso, compreender o histórico da pessoa é fundamental. O diagnóstico não deve ser baseado em um teste isolado ou em vídeos de redes sociais, mas em avaliação profissional cuidadosa.
Diagnóstico não é um teste de internet
Com a popularização do tema, aumentaram também os conteúdos sobre TDAH nas redes sociais. A informação pode ser importante, mas é necessário ter cautela.
Identificar-se com uma lista de sintomas não equivale a receber um diagnóstico.
Uma avaliação adequada considera a presença dos sintomas ao longo do desenvolvimento, o prejuízo funcional e diferentes contextos da vida. No Brasil, há literatura especializada sobre os desafios do diagnóstico do TDAH em adultos e a necessidade de critérios clínicos para essa avaliação.
E qual é o papel da Psicologia?
A Psicologia pode desempenhar um papel importante tanto na avaliação quanto no acompanhamento das pessoas com TDAH.
O processo psicológico pode ajudar a pessoa a compreender seu funcionamento, reconhecer dificuldades, desenvolver estratégias de organização, trabalhar aspectos emocionais e comportamentais e construir maneiras mais funcionais de lidar com as demandas cotidianas.
Mais do que ensinar alguém a “se esforçar mais”, o acompanhamento busca compreender como essa pessoa funciona e quais estratégias podem favorecer sua autonomia e qualidade de vida.
No tratamento do TDAH, a abordagem pode envolver diferentes profissionais e estratégias, de acordo com as necessidades individuais. Para crianças e adolescentes, por exemplo, Barkley aborda avaliação, orientação aos pais, manejo comportamental, escola e tratamento medicamentoso em sua obra clínica.
TDAH não define quem você é
Ter TDAH não significa ser menos inteligente, menos capaz ou menos comprometido.
Significa possuir uma condição que pode trazer desafios específicos e que merece compreensão, acompanhamento adequado e estratégias individualizadas.
Informação reduz preconceitos. A avaliação profissional evita rótulos. E o cuidado pode transformar a maneira como a pessoa compreende a própria história.
Se você ou alguém próximo apresenta dificuldades persistentes de atenção, organização, impulsividade ou autorregulação que interferem na vida pessoal, acadêmica ou profissional, procure avaliação de profissionais habilitados.
Daniely Zucatelli Lacerda
Psicóloga ClínicaCPR 16/5407
Referências
- BARKLEY, Russell A.; BENTON, Christine M. Vencendo o TDAH adulto: transtorno de déficit de atenção/hiperatividade. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2023. A edição em português aborda avaliação, organização, emoções, trabalho, relacionamentos e estratégias para adultos com TDAH.
- BARKLEY, Russell A. Tratando TDAH em crianças e adolescentes: o que todo clínico deve saber. Porto Alegre: Artmed, 2023/2024. A obra apresenta princípios de avaliação e tratamento e aborda funcionamento executivo, autorregulação, comorbidades, escola e intervenções. BARKLEY, Russell A. TDAH: transtorno do déficit de atenção com hiperatividade. São Paulo: Paulus, 2020. Obra em português voltada à compreensão do transtorno, diagnóstico, família, escola e qualidade de vida.
- BARKLEY, Russell A. TDAH: 12 princípios para criar uma criança com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Alta Books, 2024. Livro em português com orientações práticas para famílias e compreensão das dificuldades de autorregulação.
- ROHDE, Luis Augusto et al. Painel brasileiro de especialistas sobre diagnóstico do transtorno de déficit de atenção/hiperatividade (TDAH) em adultos. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. O artigo reúne especialistas brasileiros e discute aspectos do diagnóstico de TDAH em adultos.
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